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O professor, o monge e o sino
Como todas as manhas, ele caminhou os cinqüenta e poucos metros que separavam sua casinha, compartilhada com o amigo Valdebran, e a casa do sino no Templo Budista Terra Pura em Brasília. Enquanto caminhava, certamente cantarolando lampião de gás, viu passar em sua mente os rostos dos milhares de alunos que, um dia, foram contagiados pela magia de seu sorriso, de suas palavras e de seu olhar. Como todos os dias, sorriu para os pássaros e para as pessoas que passavam em frente ao Templo fazendo caminhada, jogging ou mesmo apressados para chegar ao trabalho ou a escola. Subiu os degraus da casa do sino e virou-se, ultima vez, em direção ao Templo onde há cinco anos ensinava a língua japonesa, a arte da escrita e coordenava o projeto Artes Marciais para Paz, além de celebrar casamentos, ofícios religiosos e cuidar dos outros afazeres de monge. Exatamente as 07:00 horas do dia 11 de dezembro de 2009, após uma pequena oração, balançou o tronco de madeira que funciona como badalo dos sinos japoneses, e bateu o sino; não as dez vezes como sempre fazia, e sim, uma única vez. Sentou-se e depois se deitou debaixo do sino enorme que ele orgulhosamente dizia ser o maior do Brasil. Fechou os olhos e partiu para encontrar com a esposa querida e com outros amigos que já haviam sido elevados a outra margem do rio onde somente habitam o amor, a bondade e a sabedoria. Os vizinhos, os amigos e alunos do templo, todas as pessoas que pontualmente enchiam seus corações com as 10 badaladas que ecoavam a cada trinta segundos, logo perceberam que aquele era um dia especial. O dia em que o monge e professor concluía sua missão no mundo físico. Alguns acham que sua passagem por aqui poderia ter sido mais longa, mas como contabilizar a vida de homem que, em 1966, aos 20 anos viajou 45 dias do Japão ao Brasil, para descobrir “o que havia além do mar azul”? Norio, cujo nome significa nascido para dar exemplo (Nori – exemplo, Ô - concebido/nascido), realmente fez jus a este nome e viveu uma vida repleta de exemplos de bondade, humildade e sabedoria. E que fez questão de deixar uma mensagem gravada até mesmo no ritual de sua despedida, batendo o sino uma única vez como quem anuncia ao Céu - “Olha, estou chegando”, e ainda nos deixa um recado “ficam por conta de vocês, alunos e amigos, as outras nove badaladas” como ilustrou monge Sato, seu amigo e responsável pelo Templo no Distrito Federal. Obrigado, Professor Norio! Obrigado, Monge Norio! Agradeço em nome de todas as pessoas que tiveram suas vidas iluminadas pelo seu sorriso, alegradas por suas brincadeiras, direcionadas pelos seus ensinamentos e confortadas pela sua enorme bondade... Obrigado. Sabemos que agora o senhor já descobriu também “o que há além do céu azul”.
Norio Haritani nasceu em Byo-tiem, Japão em 1945, veio para o Brasil em 1966 e fundou em 1970 a Associação Londrinense de Nihon Karate Kyokai. Após o falecimento de sua esposa, em 2001, voltou ao Japão para estudar e se tornar monge budista. Nos últimos cinco anos vivia em Brasília. Ele deixou dois filhos, Alex e Takeshi, além de milhares de alunos (Oito mil somente entre aqueles registrados na Associacao Londrinennse de Karate e outras escolas onde lecionou). “O que há além do céu azul” e “o que há além do mar azul”, são partes de um poema que ele mesmo escreveu.
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